O A.C.Camargo Cancer Center é um dos centros que contribuem para o avanço da oncologia por meio da produção científica de alto impacto. Um exemplo recente é o estudo publicado no Journal of Gastrointestinal Oncology, que avaliou o papel da radioterapia neoadjuvante em pacientes com câncer de pâncreas limítrofe ressecável.
A pesquisa analisou dados de vida real para entender se a adição da radioterapia após a quimioterapia, especialmente com o protocolo FOLFIRINOX, poderia melhorar desfechos cirúrgicos e de sobrevida.
Radioterapia no câncer de pâncreas: qual é o papel no cenário atual?
O tratamento do câncer de pâncreas, especialmente nos casos limítrofes ressecáveis, exige uma abordagem multimodal. Hoje, a quimioterapia neoadjuvante é um dos pilares do tratamento, pois pode reduzir o tumor, tratar micrometástases precoces e aumentar as chances de uma cirurgia bem-sucedida.
Dessa forma, o papel da radioterapia ainda é tema de debate. Estudos anteriores sugeriram que ela poderia melhorar o controle local da doença e aumentar as taxas de ressecção completa. No entanto, dados mais recentes, incluindo este estudo conduzido no A.C.Camargo, indicam que, na era de esquemas modernos como o FOLFIRINOX, o benefício adicional da radioterapia pode ser limitado.
Radioterapia neoadjuvante e sua indicação
A radioterapia neoadjuvante é aquela realizada antes da cirurgia, com o objetivo de reduzir o tumor, facilitar a ressecção e aumentar as chances de remoção completa da doença. Ela pode ser combinada com quimioterapia (quimiorradioterapia), que potencializa seus efeitos sobre as células tumorais.
Na prática, a indicação da radioterapia neoadjuvante deve ser individualizada. Ela pode ser considerada em situações específicas, como tumores com maior risco de comprometimento local ou quando há necessidade de maior controle da doença na região pancreática.
No entanto, com base em evidências recentes, incluindo o estudo do A.C.Camargo, aumenta o entendimento de que a radioterapia não deve ser utilizada de forma rotineira para todos os pacientes. A decisão deve levar em conta fatores clínicos, características do tumor e resposta à quimioterapia inicial.
Estudo do A.C.Camargo Cancer Center analisa impacto da radioterapia neoadjuvante
O estudo acompanhou 132 pacientes com câncer de pâncreas limítrofe ressecável tratados entre 2011 e 2023. A maioria recebeu quimioterapia com FOLFIRINOX, considerada uma das abordagens mais eficazes no cenário neoadjuvante. Parte desses pacientes também foi submetida à radioterapia antes da cirurgia.
Segundo o Dr. Tiago Felismino, oncologista do A.C.Camargo Center e um dos autores do estudo, os resultados mostraram que a adição da radioterapia não esteve associada a melhores taxas de ressecção cirúrgica, não aumentou a obtenção de margens livres (R0) e também não trouxe benefício em sobrevida global. Além disso, houve uma tendência a piores desfechos em pacientes que receberam radioterapia, embora esse dado deva ser interpretado com cautela por se tratar de um estudo retrospectivo.
Outro achado relevante foi a confirmação de que a cirurgia é o principal fator associado à sobrevida. Pacientes submetidos à ressecção apresentaram resultados significativamente melhores, reforçando a importância da seleção adequada de candidatos ao procedimento. Também foi observado que a maioria das recidivas ocorreu à distância, evidenciando o papel central do controle sistêmico da doença.
“Na prática, esses dados sugerem que, mesmo com os avanços recentes, a quimioterapia segue como principal pilar do tratamento pré-operatório em câncer de pâncreas. O uso de radioterapia tende a ser mais apropriado de forma seletiva, e não como estratégia de rotina”, pontua o Dr. Tiago.
Evidências que orientam decisões clínicas
Os resultados deste estudo mostram que é importante a existência de estratégias baseadas em evidências na oncologia. Ao demonstrar que a radioterapia neoadjuvante não melhora desfechos cirúrgicos ou de sobrevida nesse grupo de pacientes, a pesquisa contribui para um uso mais racional dos recursos terapêuticos e para a personalização do tratamento.
Além disso, o trabalho destaca a relevância de centros como o A.C.Camargo Cancer Center na geração de conhecimento científico aplicado à prática clínica. Ao integrar assistência, ensino e pesquisa, a instituição contribui diretamente para a evolução do cuidado oncológico e para a definição de condutas cada vez mais precisas e seguras para os pacientes.
Confira outros detalhes com o Dr. Tiago Felismino.
Para ler o estudo, acesse o site do Journal Gastrointestinal Oncology.